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Juventudes rurais buscam espaço de construção para além do quintal de casa

O Festival das Juventudes do Semiárido – Sobral I abriu o segundo dia de trabalho com uma mesa de diálogo envolvendo os 300 jovens beneficiários do Projeto Paulo Freire. Com o tema “O Papel das Juventudes em Defesa da Democracia e da Agroecologia”, o secretário do Desenvolvimento Agrário, De Assis Diniz; a coordenadora do Cetra, Cristina Nascimento; a secretária de Juventudes da Fetraece, Milena Camelo; e o representante do Levante Popular da Juventude, Miguel Braz Moreira debateram os cenários de promoção da agricultura familiar no Estado e no Brasil e a participação popular na construção do presente e de um novo futuro.

Na avaliação do secretário De Assis Diniz, “ao longo da trajetória da humanidade as juventudes sempre foram a força-motora das grandes transformações sociais”. “A juventude de nossos pais foi representada pelo quintal de casa, mas para as juventudes de hoje isso ainda é muito pouco. Quando um jovem começa a pensar pela cabeça de seus pais podemos ter a consciência de que algo muito grave está em curso, porque o papel das juventudes é desbravar os caminhos que aqueles que nos antecederam ainda não tiveram a capacidade de perceber”.

“O jovem de hoje precisa se libertar das amarras criadas pela educação tradicional, pela ideologia das elites e da grande mídia para poder construir o presente e também o futuro. Vocês que estão participando deste festival são protagonistas dessa mudança e o que desejamos é que possam se reconhecer através dos intercâmbios e das trocas de experiências proporcionadas pelo Festival da Juventudes do Semiárido para iniciarem a construção de uma sociedade em que os jovens sejam cada vez mais ouvidos em suas comunidades”, provocou De Assis.

“É preciso não ter medo, é preciso ter a coragem de dizer: há os que tem vocação para escravo, mas há os escravos que se revoltam contra a escravidão. Não ficar de joelhos porque não é racional renunciar ser livre, e mesmo os escravos por vocação devem ser obrigados a ser livres quando as algemas forem quebradas”, discursou o representante do Levante Popular na abertura do dia. “Há momentos na história em que todas as vitórias parecem fugir da gente, mas vence quem não desanima e a busca em sua auto-estima a força pra ser persistente”, encerrou citando a poesia de Else Vieira.

Semiárido Vivo, Nenhum Direito a Menos

Para Cristina Nascimento, falar sobre o semiárido nordestino é reconhecer as conquistas que se fazem presentes e relembrar as lutas dos pais e avós dos jovens do semiárido que participam do encontro. “Afirmar esse lugar é também entender que não nascemos com o celular na mão, com uma cisterna no quintal de casa e nem com uma casa de sementes na comunidade em que vivemos: isso tudo é reflexo de um processo político no nosso próprio País. As cisternas e as casas de sementes carregam um saber, um conhecimento que foi repassado, e também um posicionamento político, enfatiza a coordenadora do Cetra.

“Hoje, esse nome (semiárido) nos traz uma identidade de um povo sabedor: de gente que sabe cuidar da própria terra, que estoca a própria água e que guarda a própria comida – é esse semiárido que nos dá hoje alegria de falar nele, mas nem sempre foi assim. Por isso, é importante reconhecermos a luta de quem veio antes de nós para entendermos que essa luta é contínua e nunca se encerra. A juventude do campo tem, sim, todo direito de lutar para ter um local digno para se viver e tem, sim, todo direito de ser feliz”, complementou. “Semiárido vivo, nenhum direito a menos”, encerrou.

Educação contextualizada

“A Juventude sempre saiu do meio rural (em direção aos grandes centros urbanos): por conta da seca, por conta da falta de oportunidades, por conta do machismo, do racismo, do feminicídio e de uma educação elitista que nos educou da maneira errada. A gente aprendeu que letra F é de figo, mas ninguém aqui comeu essa fruta que só existe no Sul do Brasil: quando o ´figo´ que a gente conhece é o ´figo da galinha´, o ´figo do boi´ e do carneiro”, ilustrou a coordenadora de Juventudes da Fetraece, Milena Camelo.

“O campo só vai mudar para os jovens quando os nossos pais entenderem que o nosso local é aqui, e não no Rio de Janeiro, enviando dinheiro para as nossas famílias. Só vamos permanecer no campo quando os nossos sindicatos entenderem que não queremos tirar o espaço de ninguém: o que queremos é participar e ter voz nas decisões que influem diretamente em nossas vidas e daqueles que vem logo atrás de nós”, traçou os próximos desafios. “O mundo precisa da nossa rebeldia e da coragem dos nossos jovens. Viva o Projeto Paulo Freire e a força da nossa organização”.

(Imagens Marcos Vieira e André Gurjão)