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Gerente do Semear Internacional fala sobre Turismo Rural no Semiárido

14/08/2020

A Gerente de Gestão de Gestão do Conhecimento do Programa Semear Internacional, Aline Martins, concedeu uma entrevista ao Projeto IDeF – Internacionalização Descentralizada em Foco, do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), voltado para a produção, levantamento e difusão de conhecimento e experiências na área da cooperação internacional descentralizada.

O tema principal da entrevista é o Turismo Rural, utilizando como ponto de partida e de referência o evento “Intercâmbio com foco no Turismo Rural no Semiárido – Conhecer, valorizar e manter o semiárido brasileiro”, que aconteceu no ano passado, realizado pelo Semear Internacional, em diversos municípios do estado da Paraíba.

Abaixo, reproduzimos parcialmente a entrevista, em formato pingue-pongue (perguntas e respostas), cuja base de ideia inicial foi organizada por Mateus Andrade. Originalmente, o texto integral está publicado no website do Observatório IDeF, no seguinte endereço:
https://www.idef-ufpb.com/idef-entrevista-prog-semear-intern.

IDeF – O que é o Programa Semear Internacional e como ele atua?
Aline – O Programa Semear Internacional é um programa de gestão do conhecimento do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola -FIDA, da ONU. Aqui no Brasil, ele tem seu investimento voltado para o semiárido, distribuídos em seis projetos, um com o Governo Federal e os outros cinco são com governos estaduais.

O FIDA financia esses projetos de desenvolvimento do semiárido com empréstimos e doações. A Paraíba tem essa parceria com o FIDA e com a ONU para o desenvolvimento do semiárido, que é o PROCASE (Projeto de Desenvolvimento Sustentável do Cariri, Seridó e Curimataú), ligado ao governo do Estado, através da Secretaria de Agricultura. O Programa Semear Internacional faz a gestão do conhecimento desses 6 projetos, que significa fazer a troca do conhecimento entre projetos, estados e até mesmo países.

IDeF – Os intercâmbios fazem parte do escopo de atividades, então?
Aline – Sim, nós fazemos intercâmbios participando da vivência e passando alguns dias em campo, fazendo também uma parte técnica, metodológica, pedagógica e teórica. Os nossos públicos são produtores e produtoras rurais, gestores públicos, universidade e artesãos com foco em juventude, comunidades tradicionais, quilombolas, mulheres e agricultores familiares. Quando nós realizamos os intercâmbios, procuramos sempre manter prioritariamente esse público,

IDeF – Isso inclui também o tema do turismo rural?
Aline – Como o tema do turismo rural é algo relativamente novo e trabalhado com políticas públicas, trata-se de algo ainda não muito explorado, mas com grande demanda. Devido ao semiárido ter um clima mais difícil, com incidência solar grande durante todo o ano e também falta de água e chuva, ele não costuma ser tão atraente para o turista tradicional, mas as pessoas que moram no semiárido começaram a perceber a beleza que existe nele e a capacidade que elas próprias teriam de receber essas pessoas e mostrar um turismo diferenciado, mostrando a sua vivência. Por exemplo, passando alguns dias com as mulheres, homens e jovens que moram nessa região. A partir desse potencial, decidimos dar mais atenção ao tema.

IDeF – O “Intercâmbio com foco no Turismo Rural no Semiárido – conhecer, valorizar e manter o semiárido brasileiro” contou com uma comitiva de representantes de todo o Nordeste para conhecer as exitosas experiências no âmbito do turismo rural. Quem foram essas pessoas convidadas?
Aline – A prioridade que a gente teve quando pensou nesse tema foi trabalhar com jovens, pela necessidade deles de profissionalização: construir uma forma de turismo e ser capaz de receber visitas e prestar serviços, conhecido também como turismo de base comunitária, apoiando também o trabalho não agrícola, gerando mais oportunidade no campo. Então, o turismo rural seria uma ideia de focar na juventude, permitindo que os jovens participem mais do seu local e tenham a oportunidade de trabalhar nele.

Priorizando os jovens, nós mandamos convite para os seis projetos nos quais o FIDA atua aqui no Brasil, para que ele selecionasse jovens que teriam interesse em trabalhar com esse tema. Convidamos também beneficiários finais dos projetos, técnicos e gestores. Ainda tivemos a presença das equipes da Secretaria de Turismo da Paraíba, da PB-TUR e do Governo do Piauí.


IDeF – Como ocorreu esse intercâmbio? Quais atividades foram realizadas?
Aline – O programa contratou uma equipe experiente em turismo rural e fez uma parceria com a Coorporação PROCASUR, que trabalha desde 1996 no desenvolvimento e disseminação de ferramentas e metodologias para uma gestão eficaz do conhecimento. As comunidades rurais na Paraíba chamaram nossa atenção porque apesar de serem muito simples, elas já contavam com um turismo rural incipiente. Foi feita uma visita prévia a todos os empreendimentos, atividades e hotéis, e depois disso montamos um roteiro e circulamos pelas experiências dos projetos para que os participantes pudessem conhecer e perceber interesses e similaridades entre as suas regiões e as atividades que visitamos.

A gente passou o primeiro dia em Areia-PB, onde já começa a Rota do Frio, e visitamos o projeto Flores Vila Real e a ADESCO, que é uma associação de mulheres que trabalham com caprinos e fazem queijos com leite de cabra. Depois fomos para Boqueirão e para Cabaceiras, onde houve visitas ao lajedo e conhecemos um turismo que aproveita bastante a beleza natural da região, faltando apenas estrutura de restaurantes e pousadas. E aí se percebe algo muito interessante: como essa é uma região isolada, o que eles fizeram foi optar pelos campings e montar o restaurante em cima da pedra do lajedo, como um restaurante itinerante.

Percebemos também que não se trata de um turismo que visa muito lucro e isso é interessante porque desconstrói a questão econômica exploratória que vemos nas capitais, por exemplo, subindo o preço de custos de hospedagem e passeios e fazendo com que o turista gaste muito devido às oscilações das estações do ano. Enquanto isso, no turismo de base rural/comunitária é possível vivenciar o dia-a-dia das pessoas e com um preço muito justo, sem exploração comercial e visando uma economia solidária, com o objetivo de ganhar, obviamente, mas sem cobrar nada além do razoável.


IDeF – Você mencionou as mulheres que fazem queijos com leite de cabra. Como a culinária entrou na composição do intercâmbio e qual a importância dela para o turismo rural?
Aline – Como o semiárido trabalha muito com caprino e ovino, que são os animais que conseguem resistir à seca, as mulheres costumam produzir vários produtos derivados do leite de cabra como queijos de vários tipos: queijo defumado, queijo com vinho, com orégano, com doce, tudo organizado, com boa embalagem e certificação do MAPA. Assim, dá para agregar o turismo rural com a culinária, que possui produtos que vendem facilmente. Ao visitar os pontos turísticos, encontramos o crochê, o artesanato, os brinquedos, e sempre há também alguém vendendo frutas orgânicas e derivados do leite de cabra, criando uma rede de turismo comunitário.

O turismo rural é isso. É a comunidade se organizar para receber o turista sem modificar muito sua vida, apenas aprendendo a receber bem e fazendo isso em cadeia. É uma rede onde toda a comunidade vai ganhar. Lá em Areia, por exemplo, na comunidade Chã de Jardim, tem o “Restaurante Vó Maria”, que funciona completamente em cadeia. A comunidade inteira se beneficia do turismo rural porque eles plantam no local e utilizam esses produtos para produzir os jantares e almoços. Não compram nada de fora. E a comunidade, que antes só plantava um tipo de produto, agora começou a plantar diversos tipos de fruta para poder fazer vários tipos de polpas e sucos, e isso ajuda também na questão climática e na agrobiodiversidade.

​Além do restaurante, tem uma equipe de jovens que pode te conduzir por uma trilha lá mesmo na comunidade. A trilha é pequena, mas eles vão mostrando tudo que tem no meio da floresta, quais tipos de plantas, etc. Então, eles foram inovando: fazem compostagem, fazem reuso de água, e isso é mostrado durante esse passeio onde tudo foi agregado. Ao final do passeio, eles forram o chão com esteira, um deles começa a tocar violão e ainda fazem um piquenique com os turistas. Tudo isso é o que o turista que vai para o meio rural deseja. Ele quer se sentir parte da comunidade e conhecer as pessoas como elas são.


IDeF – Vocês já tiveram algum feedback sobre novas atividades que foram desenvolvidas?
Aline – Durante o intercâmbio, estava presente a equipe do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), e eles ficaram bastante entusiasmados para escrever algumas orientações para todos os estados do Brasil em relação ao turismo rural, citando a Paraíba como um exemplo. Além disso, a equipe do Piauí saiu do intercâmbio com muitas ideias e estão preparando algo parecido em uma região que tem quedas d’água e que ninguém nunca pensou em tornar aquilo um ponto de turismo, até por ser no interior e muito quente. A partir disso, estão fazendo um projeto de turismo rural no Piauí, baseado no que eles viram lá no Lajedo do Pai Mateus, em Chã de Jardim, com a história do restaurante que envolve a comunidade inteira.

Este tipo de intercâmbio é importante para que se perceba que o setor de turismo é um setor complexo. Montar um restaurante, por exemplo, exige dedicação e aprendizagem, e não apenas saber cozinhar, mas também atividades com limpeza, pagamentos, divisão justa dos lucros e tudo isso foi abordado na parte teórica do evento. As pessoas focam muito na agricultura e na venda, e esquecem que ainda existe essa outra possibilidade de renda, de trabalho e de desenvolvimento, e para isso precisamos de mais investimentos nessa área. ​