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Gás ecológico marca presença no Sertão nordestino

Obter gás a partir do esterco bovino. Esta é a ideia que o Projeto Dom Helder Camara apresenta aos agricultores do Sertão nordestino. A iniciativa tem como objetivos promover a sustentabilidade e dar uma alternativa energética para a população do semi-árido. Tudo se dá através da construção de biodigestores, equipamentos que produzem biogás por meio da fermentação anaeróbica (sem a presença do oxigênio) do esterco bovino. O gás gerado é utilizado nas cozinhas dos moradores atendidos pela ação.

Para produzir o gás, o sertanejo necessita de apenas uma matéria-prima, o esterco bovino. A conta não é precisa, mas os sertanejos estimam que cerca de 35 quilos de esterco seja o necessário para que o biodigestor produza gás suficiente para atender a uma família de sete pessoas, em média. À título de curiosidade, uma vaca produz aproximadamente seis quilos de esterco a cada 12 horas.

Em posse do material orgânico, o agricultor elabora uma mistura com água e deposita no biodigestor, que faz todo o resto do trabalho. O produto, que é o gás, vai direto para o fogão dos agricultores através de um encanamento instalado durante o processo de construção do equipamento. O projeto do biodigestor acaba evitando que o sertanejo queime a lenha e emita dióxido de carbono para a atmosfera. Além disso, a ação retira do ambiente o gás metano, produto oriundo da decomposição do esterco na natureza.

A construção do biodigestor ocorre em parceria com as famílias. É uma espécie de contrapartida. O Dom Helder leva o biodigestor para as famílias que auxiliam na construção. Após a conclusão do equipamento, todo o conhecimento que envolve o biodigestor é repassado para os agricultores. “Nós não ficamos lá no Sertão depois que finalizamos o processo. Como as famílias nos ajudam na construção do equipamento, elas acabam assimilando todo o conhecimento do material. Eles mesmos que manejam e fazem a manutenção”, diz Espedito Rufino, diretor do Projeto Dom Helder.

Segundo dados do Dom Helder, o projeto do biodigestor atende cerca de 15 mil famílias em seis estados do Nordeste: Ceará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe. Em Pernambuco, a ação atinge o Sertão do Araripe e do Pajeú.

Os números não são exatos, mas o assistente da coordenação de produção e comercialização do projeto do biodigestor, Ricardo Blackburn, especula que praticamente todas as famílias beneficiadas com a iniciativa já deixaram de comprar o gás de cozinha tradicional. “Temos um balanço positivo muito grande. Além de tirar a pressão de carbono da caatinga, nós também ajudamos as famílias economicamente. O dinheiro que as famílias compravam o gás acaba indo para outros setores”.

OUTROS BENEFÍCIOS – O biodigestor não só ajuda na preservação do meio ambiente como também traz outros benefícios. Os resíduos da produção do biogás, por exemplo, podem ser utilizados na adubação de plantas na agricultura. “O processo de produção do gás gera dois tipos de resíduos, um líquido e um sólido. O bom é que podemos utilizar ambos na adubação de plantas. Não existe nenhum problema para a saúde do consumidor. Acaba que no final tudo é aproveitado”, explica Ricardo Blackburn.

MAIS INICIATIVAS – A produção do biogás não é a única iniciativa do Projeto Dom Helder Camara no Sertão do Nordeste. Há também outras ações voltadas para a população sertaneja. Os projetos são os mais variados. Eles vão desde o incentivo à construção de cisternas para o armazenamento de água até a criação de um comércio justo nas proximidades da cidades assistidas. “Nossa ideia é provar que pobreza não é um limitador para ninguém. Queremos sair daqui e deixar a população em um estágio melhor do que o que encontramos”, finalizou Espedito.