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B Boas Práticas na Convivência com o Semiárido

Gestão das Águas
Reuso de águas cinzas
O que é

No lugar do descarte, o reaproveitamento. Com o sistema de reuso, as águas utilizadas no chuveiro, no lavatório, na pia de cozinha, no tanque ou na máquina de lavar podem ser reaproveitadas, após um processo de filtragem.

É sobre isso que trata essa experiência desenvolvida pela agricultora familiar Andrea de Amorim da Silva e outras 17 integrantes do Grupo Mulheres Idealistas em Congo, no Semiárido da Paraíba.

A tecnologia de reuso serve para fornecer água para a produção de alimentos e outras atividades domésticas, além de ajudar na redução da contaminação ambiental. Ao dar novo uso às águas que, sujas, seriam descartadas, evita-se aquela situação de “esgoto a céu aberto” ao mesmo tempo em que se aumenta a oferta de água.

Foi num intercâmbio com mulheres de outros municípios, que Andrea e outras companheiras, conheceram o sistema de reuso de água. E, com o apoio da organização Cunhã Coletivo Feminista, instalaram três unidades demonstrativas do sistema, sendo uma delas na casa de Andrea.

O grande diferencial da experiência implementada em Congo é a participação das mulheres, que se envolvem em todo o processo. Associado ao processo de instalação da tecnologia, essa boa prática revela o aumento da autoestima feminina e seu reposicionamento na estrutura familiar.

Municípios Atendidos




Experimentador
Andrea de Amorim da Silva e Grupo Mulheres Idealistas

“Ser feminista no Cariri é ser guerreira, honesta, batalhadora, não ter medo de trabalho, é enfrentar tudo. Eu só não faço chover, mas o resto…”, garante a agricultora Andrea de Amorim da Silva.

Esse é o sentimento que parece permear o Grupo Mulheres Idealistas, do qual é uma das fundadoras.

Fale com o Experimentador

Andrea de Amorim da Silva e Grupo Mulheres Idealistas
(83) 999-70-5304

Informações sobre a experiência

Ao todo, são 18 mulheres, de 22 a 70 anos. Elas se encontram a cada dois meses para falar sobre suas demandas e planejar novas estratégias para melhor conviver com o Semiárido.

Entre elas está Andrea, que é casada com o também agricultor Gilberto, referência na cidade quando o assunto é construção de poços artesianos. O casal tem duas filhas. A mais velha é agricultora familiar. Ambas são estimuladas pelos pais a participar das reuniões e grupos da comunidade.

Andrea vê razão para isso: “Eu digo uma coisa, se tivesse me acomodado dentro de casa no meu fogão não ia ser a mulher que sou hoje, eu não tinha feito amizades, não tinha crescido em nada e não tinha conseguido nada. Hoje, a gente tem mais conhecimento, sabe falar com as pessoas. Antes eu nem falava, só mexia a cabeça dizendo sim ou não”, destaca.

Andrea mora na zona rural de Congo, no Cariri Ocidental, Semiárido da Paraíba.

Como funciona a experiência

O funcionamento do sistema de reuso é simples: as chamadas águas cinzas, aquelas já utilizadas, são canalizadas por tubos de PVC para instalações que irão filtrar produtos químicos e outras impurezas. Já limpa, a água vai, por meio de uma bomba d’água, até uma caixa elevada. De lá é distribuída por irrigação de gotejamento para os plantios.

A ideia é que a passagem das águas ocorra por gravidade. O sistema é composto por:

Caixa de gordura – é o primeiro lugar por onde a água cinza passa. A caixa da família de Andrea, por exemplo, é de tijolos, mas também pode ser de PVC. Para tampar, a agricultora usou sombrite, que é mais fácil de limpar.

Filtro – o filtro cilíndrico de alvenaria foi feito com placas pré-moldadas. As camadas dos filtros podem ser mais espessas ou mais finas, dependendo do tipo de areia e da quantidade de água filtrada. O filtro pode ser de alvenaria ou biológico.

Cisterna – também chamada de tanque de reuso, serve para estocar a água filtrada. É feita com placas pré-moldadas e deve ficar sempre coberta.

Bomba elétrica – transporta a água da cisterna até a caixa d’água elevada.

Caixa d’água elevada – caixa d’água comum, colocada em cima de uma torre de alvenaria. Dela sai o sistema de irrigação por gotejo.

Tubulação – canos de PCV fazem a comunicação entre a caixa de gordura, o filtro, a cisterna e a caixa d’água.

Implementar

O primeiro passo é escolher o local. Para isso, observe quais são e onde estão as saídas de água cinza da sua casa. Dê uma conferida também no desnível do terreno. O filtro biológico deve ficar numa área mais baixa do que as saídas da água cinza, já que ela vai escoar por gravidade. Se o terreno for plano, é preciso prever esse desnível durante a escavação da rede de convergência até o filtro biológico.

Quanto mais perto a bomba elétrica estiver do sistema, menor o gasto de energia. É bom saber também que sistema deve ficar próximo à casa, numa distância mínima de 6 metros da casa.

É preciso ter em mãos:

• Cimento saco 50 kg – 10 unidades
• Areia média – 0,2 m3
• Cal Hidratado – 05 kg
• Tela Sombrite 02 m de Largura – 02m
• Tijolos cerâmica 8 furos de boa qualidade – 200 unidades
• Pedra britada nº 19 – 1,5 m3
• Arame 12 galvanizado – 5kg
• Ferro ¼ – 4unidades
• Arame 18 recozido – 500g
• Tubo esgoto 40 mm – 5 unidades
• T Esgoto 40 mm – 4 unidades
• Joelho 90° esgoto 40 mm – 6 unidades
• Adaptador flange soldável de 32 mm – 1 unidade
• Adaptador flange de soldável 25 mm – 2 unidades
• Registro fecha rápido Soldável de 20 mm – 6 unidades
• Registro fecha rápido Soldável de 32 mm – 1 unidade
• Registro fecha rápido Soldável de 25 mm – 1 unidade
• Tubo agua fria soldável 32 mm – 4 unidades
• Tubo agua fria soldável 25 mm – 4 unidades
• Tubo agua fria soldável 20 mm – 15 unidades
• T 32 mm – 6 unidades
• T soldável de 25 mm com bucha de latão na bolsa central – 1 unidade
• Joelho 90° Soldável 32 mm – 4 unidades
• Joelho 90° Soldável 25 mm – 5 unidades
• Bucha soldável 32 x 20 mm – 6 unidades
• Bucha de redução soldável 32 x 25 mm – 2 unidades
• Cap. Soldável 20 mm – 6 unidades
• Cap. Esgoto 40 mm – 5 unidades
• Adesivo Plástico para tubos e Conexões de PVC 75g – 2 unidades
• Eletrobomba 1/2 CV Monofásica com 1” – 1 unidade
• Fita veda rosca 18 mm x 25m – 1 unidade
• Fita isolante 05 m – 1 unidade
• Cabo pp 2 x 1,5 – 20 unidades
• Plug macho 2p 20ª – 1 unidade
• Adaptador Soldável curto 32 mm x 1” – 3 unidades
• Válvula de pe PVC ¾” – 1 unidade
• Adaptador Soldável curto 25 mm x ¾” – 3 unidades
• Curva 90° soldável 25 mm – 1 unidade
• União soldável 25 mm – 2 unidades
• Plug Rosável ¾” – 1 unidade
• Caixa d’água Polietileno 310 litros – 1 unidade.

Feito isso, é hora de escavar e construir alguns itens que irão compor o sistema: a caixa de gordura, aterrada ou não, a depender do terreno, porém sempre posicionada acima do filtro; o filtro, de alvenaria ou biológico e o reservatório para água limpa.

Em seguida, faça a instalação da caixa d’água de distribuição (caixa elevada), que deve ficar o mais alto possível, para que a água desça por gravidade. Instale também uma bomba (0,5 CV) para transportar a água da cisterna de estocagem até a caixa elevada.

Pronto, agora é construir um sistema de irrigação por gotejamento a partir de canos de PCV e/ou mangueiras.

Fique atento para:

A marcação e escavação do buraco do filtro e da cisterna de estocagem devem ter as seguintes dimensões: 2,5m de diâmetro e 0,5m de profundidade (buraco do filtro) e 3,0m de diâmetro e 1,5m de profundidade (buraco da cisterna de estocagem).

As caixas de gordura são no formato quadrado, com dimensões de 0,40m X 0,40m X 0,40m em tijolos de cerâmica. Reboque e faça uma tampa móvel.

O filtro cilíndrico tem diâmetro de 1,5m e altura de 0,75m, piso concretado e 24 placas pré-moldadas. Confeccionar também duas fiadas de placas, cada fiada com 12 placas. O filtro construído será amarrado por fora com arame nº 12 galvanizado com duas voltas para cada fiada, além de ser rebocado por fora e por dentro.

Estamos quase lá! Falta fazer 104 placas pré-moldadas, de 0,40m X 0,35m. A sugestão é fazer 3 a 4 traços, cada um com 15 latas de areia e 1 saco de cimento.

A recomendação é de que o sistema de irrigação por gotejo seja feito por meio de 90 metros de canos ou mangueiras de 20 milímetros de diâmetro, distribuídos numa área de produção agrícola de 200m².

Nessa experiência, dez pessoas trabalharam para implantação da tecnologia. Teve também um esquema de mutirão e a contratação de pedreiros.

Adiantou de quê?

Tem mais água para produzir em Congo, o que fortalece o cultivo de alimentos. O solo, por sua vez, também se beneficia dos nutrientes da água tratada.

“O pé de mamão, coitadinho, tava quase morrendo, aí depois do reuso ele veio começar a brotar agora”, afirma Seu Gilberto, esposo de Andrea.

Assim como a oferta de água aumentou, cresceu também a articulação feminina e a multiplicação de saberes.

Como a experiência tem dado certo, o grupo de mulheres está estimulado a continuar buscando melhorias para a região onde vive e, claro, para suas famílias.

Desenrolar da História

Foi a partir de um intercâmbio de conhecimentos que essa história começou. Participaram dele mulheres do Cariri Ocidental e de outras comunidades assessoradas pelo PATAC, nos municípios de Olivedos e Cubati, onde o sistema de reuso de água servida já era utilizado.

Depois de saber da possiblidade de reaproveitar a água em suas propriedades e os benefícios da tecnologia, as agricultoras do Cariri não pensaram duas vezes: demandaram da Cunhã Coletivo Feminista suporte para que pudessem implementar o sistema em suas comunidades.

“No intercâmbio, a gente viu uma experiência de reuso, ficamos pensando no quanto a gente gastava de água e ficamos doidas para dar um jeito de aproveitar a água toda que a gente gasta”, diz Andrea.

Deu certo. Com o incentivo das agricultoras do Cariri, a Cunhã Coletivo Feminista desenvolveu o projeto Diagnóstico e instalação de tecnologias de reutilização de água servida no Cariri ocidental paraibano.

A iniciativa instalou três unidades experimentadoras do sistema de reuso naquela região. Uma delas, na casa onde mora a família de Andrea. Outras na comunidade de Tingui, em Monteiro, e na Escola do Campo Plínio Lemos, no Assentamento Serrote Agudo, no município de Prata.

A conquista está inserida em um contexto maior, marcado pela luta do grupo Mulheres Idealistas, do qual Andrea é fundadora. Atualmente, ele é formado por 18 mulheres que têm entre 22 e 70 anos. Todas elas moram em Congo, nas comunidades Santa Rita, Riacho do Algodão e Salgadinho.

A proposta é fortalecer a atuação feminina e o diálogo na busca por melhores condições de vida no Semiárido.

Quem apoia

Esta experiência conta com o apoio da Cunhã Coletivo Feminista. O projeto de reuso foi desenvolvido em parceria com o PATAC.

Contato:

Cunhã Coletivo Feminista
(83) 3241-5916

http://www.cunhanfeminista.org.br

cunhan@cunhanfeminista.org.br