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B Boas Práticas na Convivência com o Semiárido

Produção Agroecológica
Produção de algodão agroecológico
O que é

Inovação na forma de produzir um velho conhecido da região. O produto, algodão, já era tradição na Paraíba. O que essa experiência traz de novo é a forma de produzir.

Alexandre Almeida da Silva, atual presidente da Associação Comunitária de Queimadas, na Paraíba, fala do pai, José Sinézio da Silva, para explicar o invento: “Pai ia vendo que quando dava a primeira chuva o bicudo atacava tudo e quando começava o sol mesmo não dava bicudo nenhum. Todo ano ele plantava algodão e começou a fazer as pesquisas dele. O povo ficou assombrado como ele conseguiu produzir sem veneno”.

Atento ao comportamento da natureza, Zé Sinésio notou que o bicudo (pequeno besouro que deposita os ovos no algodoeiro) precisa da chuva para se desenvolver e que ele não ataca os botões do algodão durante a época seca. O agricultor percebeu, também, que o algodão só precisa da chuva para brotar e se sustentar. Depois, não precisa nem de irrigação.

Dessa forma, resolveu fazer diferente: plantar já no meio do período chuvoso, dando um espaçamento maior entre as plantas. Assim, o algodão iniciaria a fase produtiva no final das chuvas. O crescimento já seria na fase de estiagem.

A experiência cresceu e outras pessoas passaram a fazer parte dela. A iniciativa chamou a atenção da Embrapa Algodão, que estimulou os agricultores do assentamento a produzir para comercialização.

Com o acompanhamento e assistência técnica da organização Arribaçã, eles deram início ao projeto Escola Participativa do Algodão e, tempos depois, fundaram a Associação Comunitária do Assentamento Queimadas.

Municípios Atendidos




Experimentador
Agricultores da Associação Comunitária do Assentamento Queimadas

Os experimentadores são os agricultores da Associação Comunitária do Assentamento Queimadas, em Remígio, na Paraíba. Participaram da sistematização: Alexandre Almeida da Silva seu sogro, José Rivaldo de Aguiar, ou Zé Pequeno, como é conhecido. Eles são agricultores familiares e produtores de algodão agroecológico.

Fale com o Experimentador

Associação Comunitária do Assentamento Queimadas
(83) 9 9813-5716 (contato de Alexandre Almeida da Silva)

Informações sobre a experiência

Alexandre conta que a prática agroecológica começou quando ele chegou com a família ao Assentamento Queimadas, em 2003.

Seu pai, José Sinézio da Silva, conhecido como Zé de Sinézio aproveitou que poderia produzir em seu próprio lote para experimentar diferentes formas de cultivar.

Como funciona a experiência

É cuidando da natureza que o plantio se faz valer!

“O trabalho do algodão orgânico não é só plantar e colher não. Tem que ter o cuidado com o solo, a rotação de cultura. Uma praga que dê, a gente usa o nim, a maniçoba. A agroecologia depende do meio ambiente”, destaca Alexandre.

Seu Pequeno, seu sogro, concorda e completa: “A gente planta aqui a partir de 10 de maio até o dia de São João. O bicudo não aguenta a temperatura se é no final da chuva. Junto a gente planta feijão, coentro. É bom para o solo a rotação de cultura. O algodão fica distante um metro um do outro e no meio a gente planta outras coisas. É muita troca de experiência. Não é só plantar e colher. ”

Como o plantio do algodão agroecológico envolve todo o meio ambiente, vale lembrar que a adubação também deve ser orgânica. Folhas secas e esterco dão conta do recado.

Afinal, investir na produção agroecológica vai além de não usar veneno na plantação. Significa também que o produtor cuida da saúde do solo, protege a biodiversidade, valoriza as sementes tradicionais, respeita os limites da natureza e as relações humanas. Uma coisa puxa a outra.

Implementar

Para quem tem interesse em plantar algodão agroecológico no Semiárido, Seu Pequeno mostra o caminho:

1º. passo – Tenha em mãos sementes agroecológicas, não-transgênicas. É importante saber a origem delas.

2º. passo – Plantar no último mês de chuva, deixando um espaço de um metro, em média, entre as sementes. Para a semente brotar, basta pegar a chuva do último mês. Não precisa irrigar.

3º. passo – Entre os pés de algodão, plantar feijão, coentro, forrageiras e outras hortaliças. A diversidade de culturas protege as plantas e o solo.

4º. passo – A adubação deve ser toda orgânica, com composto ou esterco. Lembre-se de utilizar defensivos caseiros e naturais para afastar insetos e formigas.

“Faz muitos anos que a gente não vê o bicudo, mas, se não plantar do jeito que a gente faz, pode ter certeza que o bicudo aparece. Ele não foi embora não. Ele ataca do mesmo jeito que atacava antigamente”, alerta Alexandre.

5o. passo – A colheita deve ser manual, feita a partir das seis horas da manhã, que é quando a pluma do algodão está mais seca, sem a umidade do orvalho.

A seleção é feita no campo mesmo. O que não estiver bom pode ser deixado por lá para os animais comerem. Já o material selecionado vai sendo colocado em sacos de algodão, para a pluma não desfiar.

6o. passo – Separar a semente da pluma, com a ajuda da máquina beneficiadora. Vale dizer que 20% das sementes vão para o banco dos agricultores. O restante pode ser trocado, vendido ou dado aos animais.

Fique ligado: o ideal é que produtores próximos também não usem os produtos convencionais, químicos e tóxicos. Isso porque o solo da região acaba sendo contaminado. Além disso, o vento pode levar as sementes que não são agroecológicas para seus lotes.

Feito o plantio, é preciso cuidar da manutenção. A dica é garantir a diversidade de culturas entre os pés de algodão e só utilizar defensivos naturais.

Adiantou de quê?

Atualmente, cerca de 90% do algodão produzido no Assentamento de Queimadas é agroecológico.

Tamanha adesão tem trazido benefícios: a comercialização do algodão tem melhorado a renda das famílias locais e contribuído para uma alimentação saudável e diversificada.

“A história do algodão puxou a agroecologia no município inteiro. Ninguém falava do orgânico antes disso”, conta Alexandre.

Ele diz também que “até quem não planta algodão no Assentamento deixou de usar veneno” e que o local em que vive é conhecido hoje na Paraíba por causa do trabalho realizado com o algodão agroecológico.

A experiência tem inspirado até pessoas de outras localidades. Arara, Casserengue, Solânea e outros municípios da região têm seguido o mesmo caminho, segundo contam os agricultores.

Adiantou também que, armazenando as próprias sementes, o Assentamento não precisa mais de sementes de fora.

Agora, os agricultores estão na busca da certificação e do selo orgânico. Eles já se organizaram e deram entrada no processo por meio da Associação dos Agricultores Agroecológicos do Território da Borborema (Rede Borborema de Agroecologia).

Desenrolar da História

A praga do bicudo, que é um besourinho capaz de fazer grandes estragos, fez com que agricultores da Paraíba passassem a intensificar o uso de agrotóxicos. Esse fato, aliado à proliferação da praga, fez com que o estado, que sempre teve tradição no plantio de algodão, deixasse para trás a liderança na exportação para se tornar um importador.

É neste contexto que acontece a experiência do Assentamento de Queimadas, que logo chama a atenção por propor a produção agroecológica. Sem veneno, com qualidade e benefícios como o de contribuir para o cultivo de outros alimentos para a família, a prática ganhou repercussão.

“Aqui todo mundo botava veneno em tudo, queimava…Hoje isso acabou. Tem poucos agricultores que trabalham com algodão, mas veneno mesmo aqui ninguém usa mais não, nem para matar lagarta. O povo achava que era solução, não tinha informação. Através do algodão, a gente mostrou que pode fazer sem veneno. Quando chegamos aqui o povo não podia ver uma lagarta no milho que botava veneno. Hoje não tem bicudo, não tem lagarta, quando aparece é uma coisa que não precisa botar veneno, estragar sua saúde e botar dano na agricultura”, comenta Alexandre.

Antes do êxito, teve a desconfiança. Seu Pequeno, por exemplo, achava a coisa mais difícil do mundo plantar sem veneno. Pensava que não daria certo. O tempo mostrou que sim, dá certo!

“O algodão sempre trouxe para mim conhecimento e experiência. Não deixo de plantar algodão de jeito nenhum. Se não fosse o algodão eu não estava onde eu estou não. Só não tenho dinheiro, mas conhecimento tem demais”, diz.

O Assentamento de Queimadas tem cerca de dois mil hectares. Lá moram 100 assentados, num total de 130 famílias – considerando os filhos dos assentados.

Atualmente, Remígio promove o Festival da Cultura Agroecológica, destacando o artesanato, o algodão, a diversificação agrícola e a troca de saberes.

Quem apoia

Esta experiência conta com o apoio da Arribaçã, Sindicato dos Trabalhadores Rurais de
Remígio, Polo Sindical e das Organizações da Agricultura Familiar da Borborema, Rede
Borborema de Agroecologia, AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia e Embrapa Algodão.

Contatos:

Arribaçã – Associação de Apoio a Políticas de Melhoria da
Qualidade de Vida, Convivência com a Seca, Meio Ambiente e
Verticalização da Produção Familiar
(83) 9 9929-2976
avedaterra@yahoo.com.br

Polo Sindical e das Organizações da Agricultura Familiar
da Borborema
(83) 3361-9000
poloborborema@uol.com.br