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B Boas Práticas na Convivência com o Semiárido

Criação Animal
Pescadoras da Paraíba desenvolveram técnica que impulsionou valor do pescado em mais de 500%

A Cooperativa de Pescadores e Agricultores Familiares de Camalaú e Região (Coopescaf) reúne 20 produtores rurais que trabalham com a produção de alimentos como milho, feijão, e hortaliças, e vendem em feiras livres da região. Estes produtos também são fornecidos a prefeituras, através de programas de incentivo a agricultura familiar, e demais canais de comercialização.

Todos os cooperados, além de agricultores familiares, são pescadores, muitos deles desde a adolescência, e aprenderam o ofício com os pais fazendo a piscicultura estar presente entre diferentes gerações e o beneficiamento do pescado, com peixes de várias espéies, ser destaque em todo o estado.

Mas uma atividade vem se destacando entre as demais por seu espírito empreendedor e inusitado. Além de trabalharem diretamente na produção dos produtos que as famílias vendem, as mulheres da cooperativa se juntaram e criaram um grupo para lidar com artesanato e desenvolver uma atividade que hoje é referência na região: a comercialização da traíra.

Historicamente a traíra é um peixe de baixa comercialização devido à quantidade de espinhas que tem, fazendo com que o preço seja baixo e a procura menor ainda. Percebendo este problema, as mulheres desenvolveram uma técnica de lidar com a carne deste tipo de peixe conseguindo inseri-lo no mercado e ainda lucrando um valor bem maior do que o que era vendido na forma in natura.

Elas começaram a desfiar a carne da traíra com o intuito de eliminar a quantidade da espinha e fazer com que o produto agregasse um valor bem maior ao resultado. O filé da traíra desfiado foi o resultado desta técnica, e começou a fazer sucesso de forma local e logo em várias cidades da região. Assim, estava desenvolvida uma nova técnica e uma fonte de renda daquelas famílias.

Para se ter uma ideia, o quilo da traíra in natura é comercializado por aproximadamente R$ 6, mesmo assim a procura é bem pequena. Com o beneficiamento da carne do peixe através da técnica desenvolvida por elas, o quilo do filé da traíra sobe para R$ 40, uma valorização do produto em mais de 500%. E o lucro chama ainda mais atenção. Acontece assim: As mulheres compram a traíra in natura da própria cooperativa para fazerem o beneficiamento pelos R$ 6. Após ser desfiado, cerca de quatro quilos são necessários para se chegar a um quilo do produto pronto. Mesmo com este investimento, o lucro de cada uma não sai por menos de R$ 8.

Com esta técnica desenvolvida, vários outros tipos de alimentos começaram a surgir, como patê de traíra , hambúrguer, tapioca recheada e até pizza. Cada uma dessas receitas gerando renda para as mulheres de forma individual e para todo o grupo. A técnica deu tão certo que algumas delas já viajam para outras cidades para ensinarem a outras mulheres, criando uma cadeia regional que transcende aquele mercado local na cidade. O filé de traíra também teve destaque fora do país. Uma prova disso é que o grupo já ganhou dois prêmios internacionais e reconhecimento também dentro do Brasil.

Além da culinária, o grupo de mulheres também aliou a pouca venda da traíra a outro talento delas: o artesanato. Com os processos de beneficiamento do filé da traíra, um dos rejeitos naturais de todo tratamento de peixe é utilizado em peças manuais: a escama. Elas estão utilizando as escamas das traíras na produção de peças como arranjos de flores e até buquê de noivas. A técnica para a produção requer higienização e pintura das escamas em um trabalho minucioso para produzir cada peça, que são vendidas por elas mesmas.

A Cooperativa comemora o trabalho ampliado após o desenvolvimento desta atividade, e viu com a chegada de um caminhão frigorífico entregue pelo projeto Procase, apoiado pelo FIDA no estado mais uma forma de impulsionar as vendas dos peixes. Agora, além da venda do pescado in natura, do beneficiamento da traíra e artesanato a base de escamas, eles partirão para se inserir em mercados privados, entregar os produtos a supermercados da região e que, sabe, um dia, para grandes redes varejistas.