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B Boas Práticas na Convivência com o Semiárido

Criação Animal
Manejo de caprinos
O que é

Desde menina, a agricultora Maria das Graças de Almeida, conhecida como Dona Gracinha, leva jeito para cuidar dos caprinos. Hoje, ela tem um rebanho forte e bonito, que produz leite mesmo na estiagem, lá no Sítio Girau, onde vive, em Remanso, Semiárido baiano.

Não tem segredo. Tem conhecimento, coragem e investimento. Dona Gracinha combina várias técnicas que garantem água e boa alimentação para o rebanho em qualquer época e, diferente do que reza a tradição, mantém os animais protegidos em suas terras ou no aprisco.

O cuidado com o rebanho rende à criadora um bom leite, que é vendido ou transformado em queijo, manteiga e doces. Dona Gracinha usa parte do esterco produzido em sua produção agrícola e vende o excedente.

“Sempre digo que antes o bode que criava a gente. Hoje, a gente que cria o bode!”.

Para contribuir com o dia a dia no campo, a agricultora possui um aprisco e uma sala de ordenha e, também, um chiqueiro.

Municípios Atendidos




Experimentador
Maria das Graças de Almeida (Dona Gracinha)

Tamanha intimidade com o manejo de caprinos tem razão de ser. É que a história de Maria das Graças de Almeida, a Dona Gracinha, com a criação de animais começou cedo, quando ainda era menina.

Fale com o Experimentador

Maria das Graças Gomes de Almeida (Dona Gracinha)
(74) 991-30-3403

Informações sobre a experiência

Já naquela época ela gostava de cuidar de bodes e cabras do seu pai. Aos 17 anos, se casou com o Ranulfo Lopes de Almeida e passou a se dedicar de vez à criação.

No início, cuidava também de crias de outras pessoas. A cada quatro animais, ficava com um como pagamento. Assim ela conseguiu juntar 15 caprinos e passou a cuidar somente de seu rebanho.

A agricultora experimentadora mora com seu esposo no Sítio do Girau, em Remanso, no Semiárido da Bahia, numa área com 80 hectares. É mãe de três filhos: Reginaldo, Ronaldo e Renilde, todos casados.

Como funciona a experiência

Segundo Dona Gracinha, para uma cabra ou um bode crescer saudável e dar retorno ao criador, precisa de:

Alimentação

“A primeira coisa que precisa é água e alimento”, destaca a agricultora. Por isso, ela começou a plantar forrageiras, que servem como fonte de alimentação para o rebanho. Com alto valor nutritivo, essas plantas são de fácil digestão. Os animais gostam.

Elas podem ser fornecidas no pasto ou no roçado – pelo simples plantio delas ou colhidas para produzir feno ou silo. Gracinha faz as duas coisas.
Ela solta os animais para se alimentarem diretamente das plantas e, também, colhe as forrageiras para armazenar ração em forma de silo, em sacos bem vedados, e feno, de maneira desidratada. Assim, ela garante a alimentação para todo o ano.

Entre as forrageiras, Gracinha tem 1500 pés de leucena, mais de 3 mil pés de gliricídia, além de uma área grande de palmas, mandacaru, milho, mandioca, capim, melancia forrageira (chamada também de melancia brava ou melancia de cavala), sorgo e andu.

Ela colhe, deixa secar, junta tudo e guarda em sacos ou enterra no chão debaixo de uma lona. Atualmente, possui 216 sacos de ração tipo feno, sendo 108 de milho e 108 de leucena, e mais dois silos grandes e enterrados em lona de capim elefante misturado com gliricídia.

Para dar aos animais, ela ensina: misturar o feno com palma ou com melancia brava (forrageira) deixa a ração bem molhadinha e com cara de “saborosa”!

Água

A agricultora tem uma cisterna de consumo humano, de 16 mil litros, e uma cisterna calçadão, de 52 mil litros, para produção de alimentos. Ela também construiu três caldeirões/tanques de pedra e um barreiro, além de ter acesso à bomba d’ água popular da comunidade.

Gracinha também recicla garrafas plásticas para guardar água. Já conseguiu juntar 1500 garrafas de dois litros. Essa água ajuda na criação de galinhas e serve para molhar plantas, tomar banho e lavar roupa.

Manejo dos animais

Dona Gracinha separa os caprinos em grupos: fêmeas que estão amamentando; cabritos que precisam desmamar para começar a comer no roçado ou a ração; machos e fêmeas no cio; as mais violentas e as mais calmas; as que têm chifre e as que não têm.

Cada grupo fica num aprisco ou numa área do sítio. Isso é importante para que não se machuquem e ajuda a otimizar a alimentação. Se todos ficarem juntos, uns acabam comendo mais que os outros e há também casos de um animal bater no outro.

Os animais ficam soltos durante o dia. No fim da tarde, voltam para os apriscos e chiqueiros para dormirem protegidos. Não é necessário ir buscá-los; eles vão sozinhos.

No Sítio Girau, a ordenha é feita logo pela manhã, bem cedo. A cabra amamenta os filhotes ao longo do dia e, à noite, junta o leite novamente.

Dona Gracinha deixa os novinhos que estão amamentando com suas mães, para evitar que se percam. Elas ficam presas com suas crias e são soltas quando chove, para ficarem numa pastagem boa. A agricultora ensina que, com três meses, está na hora de desmamar os filhotes.

Para as cabras que estão produzindo leite, Gracinha mistura a tora de algodão, que é a planta de algodão sem flor, às outras plantas da ração. Segundo a agricultora, isso ajuda a aumentar a produção de leite.

Ao ir ao aprisco ou ao chiqueiro, leva sua maleta com medicamentos veterinários e remédios caseiros. Ela mesma aplica vacina e remédio de piolho, caso perceba que eles estejam com um parasita. Como o piolho fica no chão do aprisco, Gracinha dilui o medicamento e borrifa em todos os animais e nos locais onde dormem.

O cuidado precisa ser rápido. Piolhos causam anemia, principalmente, nos mais novos. Entre os remédios caseiros para os cuidados com o rebanho, há um preparo que ela faz para tratar ferimentos. Na mistura vai aroeira, umburana de boi, jurema-preta, jacurutu, ameixas e álcool. O pó da casca de ameixa é utilizado por Gracinha como anti-inflamatório e bactericida.

Ela também aproveita o esterco, utilizando-o como adubo. Antes, é preciso deixa-lo 30 dias “curtindo” no sol, jogando água diariamente. Isso faz com que ele não libere mais calor quando estiver pronto.

Implementar

Dona Gracinha destaca a importância de investir em uma infraestrutura adequada e comprar, por exemplo, medicamentos, equipamentos, máquina forrageira e outros animais.

Ela diz que sem investimento o rebanho não aumenta e não dará lucro. “Mesmo que no começo fique sem nada, sem dinheiro nenhum, tem que guardar o que vai reinvestir”, frisa.

A agricultora conta que uma cisterna no aprisco para captar água da chuva faz falta. O telhado é grande e Gracinha não está conseguindo aproveitar a água que escorre por ele.

Também ajudaria uma fonte de água mais próxima à área da criação, importante para a higiene do local. Como está, ela ainda tem que levar um balde de água para limpar o espaço.

Quando a vegetação está verde na Caatinga, Gracinha solta os caprinos na roça, para que eles possam se alimentar das plantas do próprio roçado. Nesse período, prepara a ração para estocar no período de estiagem.

A agricultora busca guardar ração sempre que pode, para garantir a alimentação do rebanho. Além da que produz e das plantas que mantém no roçado, ela compra, mensalmente, algodão e farelo de trigo.

Outro cuidado importante no trato com animais é manter a vacinação em dia. No caso de Dona Gracinha, ela mesma aplica as vacinas e os remédios para vermes em seus animais. É ela também quem castra cabritos e bodes.

Ela ensina um dos remédios caseiros que usa em ferimentos nos animais: um preparo com aroeira, umburana de boi, jurema preta, jacurutu e ameixas, misturadas ao álcool.

Adiantou de quê?

Antes, Dona Gracinha tinha que buscar água longe ou vender algum animal para comprar água de carro pipa. Com sede e com fome, muitos animais morriam no período de estiagem. Nesta época, conta, não poderia soltá-los porque não havia ração armazenada.

Hoje a história mudou. No Sítio Girau, não falta água e nem comida para a família e o rebanho.

A criação de caprinos a partir das práticas de convivência com o Semiárido permitiu uma integração de toda a área do sítio. Ela cria também porcos, galinhas e abelhas. Num barreiro artificial construído pelo esposo, Gracinha está começando a criar peixes – tambaqui e tilápia.

Com a produção da horta, consegue garantir uma boa alimentação para a família. Entre os cultivos estão feijão, milho, mandioca, melancia, hortaliças, cenoura, pepino. Tudo sem agrotóxicos ou adubos químicos.

Dos 80 hectares de terra, 10 são cultivados. O restante é destinado à conservação da Caatinga, o que contribui, também, para a criação de abelhas. Só em 2016, por exemplo, com 45 caixas de abelhas, conseguiu tirar 700 litros de mel.

Desenrolar da História

A maioria das pessoas da região onde vive Dona Gracinha cria o rebanho solto e acaba perdendo muitos animais. Os filhotes não sobrevivem, nem sempre encontram comida e abrigo.

A agricultora reforça que é preciso cuidar dos animais para que não tenha prejuízo.

Dona Gracinha intensificou as práticas de convivência com o Semiárido, especialmente, o armazenamento de água e alimentos, após a conquista da cisterna calçadão por meio do Programa Uma Terra e Duas Água (P1+2), da Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA), executado pelo Serviço de Assessoria a Organização Populares Rurais (Sasop), em 2011.

Ela aprendeu tudo o que vem implementando no Sítio Girau, junto com o esposo, por meio de experimentações, intercâmbios e trocas de experiências. Gracinha também busca acessar saberes em reportagens, folhetos, cartilhas.

O aprendizado precisa ser colocado em prática. Ela diz que se não experimentar, não avança.

Quem apoia

Esta experiência conta com o apoio do Serviço de Assessoria a Organizações Populares Rurais (SASOP) e do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA).

Contatos:

Serviço de Assessoria a Organizações Populares Rurais (SASOP)
(71) 3335-6048 / 6049/ (74) 3535-1548 / 0093

http://www.sasop.org.br

sasop@sasop.org.br

Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA)
(74) 3611-6481

http://www.irpaa.org

irpaa@irpaa.org