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B Boas Práticas na Convivência com o Semiárido

Produção Agroecológica
Jovem beneficiária do Projeto Paulo Freire semeia o futuro plantando mudas e sementes

As curvas da estrada que conduz até a comunidade Santa Luzia, pelas veredas da Serra do Rosário, município de Sobral, escondem e descortinam, aqui e ali, uma paisagem árida armada sobre um solo argiloso. Aqui, plantando bem, tudo dá. Motivo a mais para um olhar treinado colecionar os pés de manga, seriguela, caju, goiaba, acerola e ata isolados por uma enorme quantidade de gravetos que se impõem em meio ao pasto seco e às rochas amontoadas sem qualquer ordem ou previsibilidade.

Ser jovem e mulher no sertão é estar marcada pela resiliência: ao clima, às dificuldades de transporte e acesso, às condições de produção e de falta de um mercado e, sobretudo, ao agravamento das questões sociais e ambientais tão presentes, mesmo que invisíveis. Não é apenas a água na torneira que não chega ao número 56 de uma rua sem nome na comunidade Santa Luzia. A novidade para chegar aqui avança um pequeno trecho de morro e aguarda sob sombra do marmeleiro a primeira carona amiga para chegar mais longe.

E não se fala da ausência de tecnologia. As parabólicas que passaram a povoar o sertão há uns 20 anos lá também estão presentes. Também não é difícil percorrer os 33 quilômetros que separam o centro de Sobral até aqui. Mesmo que uma ou outra curva desafie o braço do motorista habilidoso, o asfalto recente por cima do paralelepípedo nos acompanha até bem próximo da casa em que Thiara Sousa, de 22 anos, vive com o esposo Cleilson há pelo menos seis. Há um ano perdeu o pai para a depressão.

A parte que te cabe

A caixa de som, com um metro de altura, é a principal companheira das horas de silêncio e tédio em meio às tarefas domésticas. O som só não pode atingir o volume máximo porque afasta as telhas de casa. É uma sala: conectada à cozinha por um corredor e, no meio do caminho, o quarto onde dorme o casal e um móvel de madeira compensada. A porta detrás, partida em duas, dá o acesso ao fogão à lenha e ao quintal. E, retornando pelo mesmo caminho, na única janela do corredor só pode caber Thiara.

É uma casa acolhedora e a primeira providência é tomar um copo d´água para espantar o calor. Sementes, café, bananas e ovos sobre mesa de jantar. Uma pia, uma geladeira e um fogão à gás. Mais um móvel compensado, na direção contrária à geladeira, três cadeiras, uma grelha, uma tábua de cortar, duas vassouras e uma lixeira de plástico presa à parede. E, embora tão bem cuidada, a família paga pela hospedagem com uma parte da produção.

Não foi fácil para Thiara chegar até aqui. O que conquistou é fruto da liderança que desenvolve no grupo Jovens Reunidos em Cristo (Jorecris) e, de um três anos para cá, passou a estar mais próxima do Centro de Treinamento e Assessoria ao Trabalhador (Cetra). O contato com a entidade prestadora de Assistência Técnica Contínua (ATC) pelo Projeto Paulo Freire ajudou com que ela se reconhecesse como feminista. “Ser feminista é lutar por direitos iguais. É lutar por uma igualdade que é negada às mulheres”, resume a inspiração que recebeu.

Queria voar mais livre

“A Thiara tem uma história muito dela. Mas houve um divisor de águas, que foi a exposição de fotografias das mulheres do Paulo Freire. Quando uma jovem do assentamento Maceió (Lucivanda), que representa o Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais, fez a sua fala, a resposta da Thiara foi ´como eu levo para minha comunidade?!´. E, a partir dali, começa a incorporar a fala da mulher feminista na sua prática”, explica a coordenadora do Cetra, Cristina Nascimento.

“Isso é para você ver como um projeto é uma porta de entrada e você pode enxergar várias possibilidades. E a Thiara é dessas. Ela enxerga possibilidades, se permite a viver tudo isso e eu acho que é uma liderança feminina e feminista que vai se consolidando. Esse é o segundo festival (das Juventudes – Sobral I) que ela apresenta a experiência dela, recebeu um intercâmbio na própria comunidade, e isso valoriza a experiência dela e permite que esses jovens se coloquem na liderança e no protagonismo dos espaços”, avaliza.

A menina do dedo verde

Hoje, Thiara representa uma das famílias atendidas pelo Projeto Paulo Freire na comunidade Santa Luzia. Ela já recebeu o galinheiro e a quantidade de penas espalhadas pelo chão indica claramente que o equipamento já se encontra em uso. Faltam apenas os novos animais ocuparem o mesmo espaço e duplicar a produção de ovos vendidos na feira. “Acho que ser jovem do semiárido é ser persistente. É lutar e mostrar que essa luta tem algum retorno”, comemora os primeiros resultados do projeto.

Mesmo antes da conclusão do projeto produtivo, a jovem agricultora foi atendida com assistência técnica e participou de capacitações e intercâmbios que ajudaram a tomar conta do próprio negócio e aprofundaram os conhecimentos sobre agroecologia e meio ambiente. “O trabalho das mudas (de distribuir e plantar à beira do riacho Santa Luzia) começou com a ideia de coletar o lixo. Aí, a gente viu que a comunidade estava meio desmatada e (as margens) do riacho também”, conta.

“Viver no campo é sempre a melhor escolha”. E, assim como o espaço da moto do casal teve que mudar para criação de um pequeno viveiro de mudas nativas e frutíferas, o espaço ocupado por ela na comunidade também mudou. Foi crescendo com a chegada do Paulo Freire, até que Thiara ficou conhecida pela habilidade com as mudas e sementes e também pela capacidade de ouvir e ajudar outras mulheres que sofrem com o machismo. “Meu maior sonho é ver a Santa Luzia toda reflorestada e a minha casa rodeada de plantas”.

Produção: Comunicação – Projeto Paulo Freire