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B Boas Práticas na Convivência com o Semiárido

Produção Agroecológica
Alimentação diversificada e segura
O que é

“Quando me apresento, eu digo assim: eu sou agricultora observadora, experimentadora e multiplicadora. Porque eu vou para um lugar, observo e, quando chego em casa, experimento pra ver se dá certo. Se dá certo, eu vou multiplicar”, garante a agricultora Maria Aparecida da Silva.

Cida da Silva, como gosta de ser chamada, sempre cultivou o sonho de comer alimentos produzidos por ela mesma.  De tanto experimentar, isso passou a ser possível.

Hoje, ela e seu esposo trabalham juntos na propriedade onde vivem, consumindo e vendendo produtos saudáveis.  Quase tudo o que comem vem do que produzem. Pouco se compra fora e o casal tem acesso a alimentos saudáveis e diversificados.

Em sua propriedade, no município de Porto da Folha, Semiárido sergipano, Cida conta com biodigestor e ecofogão que só precisa de alguns galhos de árvores, palha ou sabugo de milho para funcionar.

Os gastos com botijões de gás não fazem mais parte da rotina da família! “Tô economizando o dinheiro do botijão e ajudando a natureza”, comemora.

Chama a atenção a forma como a experimentadora faz a integração em todo o sistema. A partir de princípios agroecológicos, ela potencializa as vantagens dessas tecnologias.

A família tem também cisternas de consumo humano e calçadão.

Municípios Atendidos




Experimentador
Maria Aparecida da Silva (Cida da Silva)

Agricultora, Cida da Silva aposta na experimentação no campo para melhorar a qualidade de vida de sua família.

Os esforços têm dado resultado: a alimentação se diversificou e o plantio melhorou.

 

Fale com o Experimentador

Maria Aparecida da Silva, a Cida da Silva
(79) 9 9888-9056

Informações sobre a experiência

A atuação de Cida no campo vai além dos limites de sua propriedade. Por 15 anos, a agricultora foi voluntária da Pastoral da Criança. Junto com outras mulheres, desenvolveu um trabalho para orientar sobre o uso de plantas medicinais e cuidados com a alimentação no Povoado de Lagoa da Volta, em Porto da Folha, no Semiárido de Sergipe, onde vive com a família.

Assim nasceu na agricultora experimentadora o sonho de se alimentar a partir do que ela mesma produzia.

Alguns anos depois, ela conquistou uma cisterna de consumo humano e uma cisterna calçadão para produção de alimentos.

A horta cresceu e é possível até vender o excedente!

Cida faz parte da Comissão Municipal da ASA – Articulação no Semiárido Brasileiro.

Como funciona a experiência

O biodigestor é um recipiente fechado, feito à base de alvenaria ou outros materiais e revestido em plástico. Nele são depositados estercos bovinos, entre outras possibilidades de biomassa.

Ao passar pelo alimentador, o esterco e a água são levados por uma tubulação até o reservatório onde fica armazenado todo o material, sem a presença de oxigênio. Nessa hora, as bactérias começam a agir e a decomposição da matéria orgânica rende dois produtos: o biogás, utilizado para cozinhar e o biofertilizante, que funciona como adubo para as plantações.

O material sai do reservatório por meio de uma tubulação e vai para o decantador, que serve como suspiro para desafogar o excedente. Assim é gerado o biofertilizante que aduba as plantas.

Cida ainda mistura o biofertilizante com o húmus de minhoca e comercializa na feira ou por encomendas. Ela aproveita e faz mudas para vender.

Para o biogás passar pelas tubulações até chegar ao fogão é preciso abrir o registro de controle de passagem.

Ecofogão

Cida  utiliza o ecofogão com sabugo de milho, casca de coco, capim seco, palhas e pouca quantidade de lenha, já que a câmara mantém o fogão aquecido por bastante tempo.

Isso, praticamente, sem produzir fumaça ou fuligem, uma vez que o equipamento é totalmente fechado. Sendo um fogão de cozimento de superfície por contato, ele permite o uso de qualquer panela ou o cozimento direto na chapa. O ecofogão é o xodó da agricultora.

Ele é feito de argila e chapa de aço com fibra de vidro. A chaminé é de folha de zinco e base de alvenaria. É bom porque faz cair o tempo de cozimento dos alimentos, diminui o desmatamento e reduz quase a zero aquela fumaça de queimada de lenha que intoxica quem estiver perto.

Implementar

O biodigestor pode ser construído em alvenaria, concreto ou outros materiais e revestido de plástico. Nele, o esterco fresco fermenta pela ação de bactérias, produzindo biogás e biofertilizante.

Cida, que também é pedreira, construiu seu primeiro biodigestor. Algum tempo depois, conquistou o segundo graças a uma parceria do Centro Dom José Brandão de Castro com o Projeto Dom Helder Camara.

Uma vez definido o melhor local, vamos à construção?

Acompanhe o passo a passo:

Construir as paredes do reservatório que deve ter 2 metros de profundidade e 3 de circunferência.  Ele deve ficar a dois metros do alimentador, por onde entra o esterco, e a três metros do decantador, por onde sai o biofertilizante.

Em seguida, inserir alguns itens:  caixa d’ água de 2 ou 3 mil litros; um vasilhame de 20 litros, vale usar um garrafão de água mineral, com apenas 2 litros de água dentro para retirada das impurezas do gás; um trave de sustentação da caixa d’água do reservatório; conexões (registros, curvas, niple, flange) e tubulações (cano e mangueira).

Para funcionar adequadamente, é preciso alargar as bocas do fogão, porque o biogás é mais grosso do que o gás comum.

Os materiais usados por Cida foram:

  • 5 sacos de cimento;
  • 4 ferros de estribo;
  • 4 joelhos de 45°;
  • 1 caixa de PVC de 1000 litros;
  • 10 metros de mangueiras de botijão;
  • 1 garrafão acrílico de água mineral de 20 litros;
  • 1 registro 20; 1 cano de ½;
  • 5 joelhos de 20;
  • 2 nipes;
  • 1 falange 50;
  • 2 colas de cano;
  • 1 material de conexão;
  • 3 metros cúbicos de arenoso.

Depois de construir, é preciso cuidar. A manutenção tem que ser realizada todos os dias, utilizando esterco fresco e água na proporção indicada. A água quebra as partículas sólidas do esterco e facilita a produção do biogás.

Outra dica é trocar a água do vasilhame (do garrafão de 20 litros) a cada seis meses.

Cida também tem um ecofogão. Sua manutenção é simples:   antes de utilizar, retire as cinzas da queima anterior e, uma vez por semana, limpe a fuligem por baixo da chapa. Um pincel ajuda. Não se esqueça de limpar a chaminé, periodicamente.

Adiantou de quê?

Dedicada à inovação e à experimentação de boas práticas para melhorar o dia a dia no campo, a agricultora tem conquistado mais segurança alimentar e autonomia no trabalho. “Meu marido trabalhava de diarista, alugado, como diz aqui. Disse a ele ‘vamos trabalhar junto aqui, que o da feira a gente tem’. Graças a Deus, em uma tarefa e meia de terra, consegui tirar meu marido do trabalho alugado”, comemora.

Após a implementação do biodigestor, ela também não precisa gastar com gás de cozinha e ainda tem conseguindo fortalecer seu quintal produtivo.

Além do fogo e do adubo, a agricultora tem outras vantagens do uso associado do biodigestor e do ecofogão. Ela mistura o biofertilizante ao húmus de minhoca e vende o preparo na feira ou por encomenda. Usa também no próprio quintal, fortalecendo o solo para o plantio.

Com muitos aprendizados para serem compartilhados, Cida faz palestras e diz a todos que o Semiárido é muito rico, só é preciso armazenar água. “Para onde me chamam eu vou. Não tenho mais vergonha nem medo de microfone”.

“Se a faculdade tem a teoria, o agricultor tem a prática. O melhor aprendizado é o intercâmbio de agricultor pra agricultor”, garante Cida.

Desenrolar da História

Em um intercâmbio de experiências em Riachão do Jacuípe, na Bahia, Cida conheceu o biodigestor. Foi o suficiente para colocar na cabeça que queria ter o equipamento. Construiu, assim, a tecnologia com seus próprios recursos.

O segundo veio em 2015, por meio de um projeto elaborado pelo Centro Dom José Brandão de Castro, em parceria com o Projeto Dom Helder Camara (PDHC).

A partir de outro projeto com as mesmas instituições, ela adquiriu um ecofogão. Até então, só utilizava o fogão a lenha. Bastou saber que o ecofogão precisava de uns gravetinhos para funcionar que ela se animou. Passaria, então, a conservar a Caatinga, coisa que sempre desejou.

Cida conseguiu um ecofogão para a sua casa e outro para a Associação de Mulheres Resgatando sua História, do qual é sócia-fundadora.

Essas conquistas refletem o trabalho e a luta de muitos anos. Olha só:

Em 1997 Cida se envolveu com a Pastoral da Criança, na companhia de outras mulheres. Iniciou, dessa forma, um trabalho com plantas medicinais e multimistura, que é um preparo feito de farinha e cereais, farelo de trigo e de arroz, pós de folhas verde-escuras, de sementes e de casca de ovo. Com isso, ajudava a enriquecer a alimentação de crianças em situação de vulnerabilidade.

Ao todo, foram 15 anos como voluntária na Pastoral da Criança, o que alimentou em Cida o sonho de poder viver com alimentos produzidos por ela mesmo.

Em 2003 surgia a Associação de Mulheres Resgatando sua História com a proposta de produzir alimentos saudáveis para as crianças em situação de insegurança alimentar do povoado de Lagoa da Volta.

Hoje, o grupo de mulheres tem uma horta agroecológica, beneficia alimentos para produção de doces, possui criação de abelhas, além de viveiro de mudas e um pequeno banco de sementes.

O sonho de Cida, de se alimentar do que produz, começou a ficar mais perto da realidade em 2009, quando passou a produzir na própria terra. Mas foi a partir de 2010, quando conquistou uma cisterna de consumo humano e uma cisterna calçadão, que ela conseguiu diversificar a produção. Construiu também um galinheiro e começou a comercializar o que produzia.

De plantio em plantio, a realização ficou maior que o sonho. O quintal possui cerca de 130 arvores frutíferas. Tem pés de maracujá, acerola, laranja, manga, sapoti, morango, carambola, pitanga, entre outras. Tem também plantas medicinais. Na horta, tem couve-flor, repolho, cheiro verde, alface e coentro. Plantou também palma, gliricídia, moringa. “É tudo junto e misturado aqui na terra”.

A agricultora possui também um pequeno banco de semente, seis ovelhas, 12 galinhas e um jegue.Tinha bovinos, mas vendeu porque aprendeu que eles consomem muita água e comida. Ainda restam alguns, de onde tira o leite dos netos. Deles também vem o esterco do biodigestor.

Entre as boas práticas, está o reuso da água que lava os pratos e as roupas para molhar as bananeiras e os coqueiros.

Quem apoia

Esta experiência conta com o apoio do Centro Dom José Brandão de Castro e recebeu assistência técnica do Projeto Dom Helder Camara.

Contato:

Centro Dom José Brandão de Castro (CDJBC)
(79) 3259-6928

http://www.cdjbc.org.br

cdjbc@cdjbc.org.br