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B Boas Práticas na Convivência com o Semiárido

Produção Agroecológica
Agrofloresta sobre barragem subterrânea
O que é

Em São José do Sabugi, Semiárido paraibano, a construção de uma barragem subterrânea trouxe muitas melhorias para a família Garcia. A tecnologia pode acumular grande quantidade de água da chuva dentro do solo, promovendo mais qualidade de vida para quem vive no campo. Foi o que aconteceu por lá!

Com ela, o solo desgastado pela monocultura do algodão deu lugar à uma floresta. É o Sistema Agroflorestal (SAF), tipo de manejo da terra que combina árvores com diferentes cultivos agrícolas.

O grande diferencial da experiência é o planejamento e o olhar sistêmico dos agricultores, que fizeram tudo de forma interligada: há uma combinação de diferentes tecnologias sociais que compõem um sistema produtivo agroecológico.

“Para cuidar da água, tem que cuidar do solo. Cuidando do solo, você cuida da vegetação, que faz o ciclo de todo o sistema”, ensina o agricultor Iranildo Araújo de Medeiros, filho de Seu Inácio Garcia de Medeiros.

Municípios Atendidos




Experimentador
Família Garcia

A experiência é implementada pela família Garcia, no Sítio Passagem do Carro, no Semiárido da Paraiba.

Fale com o Experimentador

Iranildo Araújo de Medeiros
(83) 999- 16-3105

Informações sobre a experiência

Iranildo Araújo de Medeiros é agricultor experimentador e trabalha como agente comunitário de saúde na sede de São José do Sabugi, onde vive.

Sua mãe, Maria de Fátima Medeiros, conhecida como Dona Fátima, é agricultura familiar, além de trabalhar com atividades domésticas.

Ela fica à frente também da gestão dos recursos e da comercialização das polpas de frutas.

Seu Inácio Garcia de Medeiros, pai de Iranildo, é agricultor aposentado.

Como funciona a experiência

Tudo junto e interligado! “Quando a floresta junta com a agricultura nasce a agrofloresta”, explica Iranildo. Em um Sistema Agroflorestal (SAF) vários cultivos convivem no mesmo espaço e ao mesmo tempo.

O importante é que as espécies sejam adaptadas ao clima e que tenham uma função no SAF. É bom saber que este tipo de manejo aceita a convivência de plantas nativas e não nativas e que manter forrageiras ajuda a manter uma reserva alimentar para os animais. Tem também a possibilidade de ter fruteiras nativas, que podem funcionar como opções de renda para a família.

A distribuição de água no SAF da família Garcia funciona por meio do sistema de gotejamento criado por Iranildo, apresentado por ele como “ um dos meus maiores inventos”. Para isso, utiliza garrafas plásticas adaptadas aos canos de PVC – a parte superior da garrafa é adaptada aos canos e a saída de água é controlada pela abertura ou fechamento da tampa da garrafa.

Por gravidade, além de regar os pés de frutíferas da agrofloresta, a água circula pela tubulação chegando também ao terreno onde tem o solo de massapé, que fortalece o solo.

Iranildo diz que mesmo quem não tem uma barragem subterrânea pode usar a cisterna calçadão ou o barreiro trincheira para manter uma agrofloresta.

Ele relata, ainda, que para o sistema funcionar é preciso que plantas e animais convivam harmonicamente. Faz também uma recomendação: é preciso adotar técnicas agroecológicas em substituição a sistemas de produção tradicional (roçado-boi).

“Hoje temos feijão, milho verde, cebolinha. Conseguimos produzir o capim que alimenta os animais. Costumo dizer que os animais são nossa poupança viva, quando a gente precisa comprar um equipamento, ou estamos com maiores dificuldades de renda, a gente vende o animal e consegue continuar trabalhando”, relata.

Barragem

A barragem subterrânea é uma tecnologia social que permite que a água da chuva se acumule dentro do solo, abastecendo um poço construído dentro da própria barragem.

Em grandes períodos de estiagem, é fundamental para evitar que as plantações morram e o gado fique sem alimento. Outra vantagem é que ela torna agricultáveis áreas no entorno de riachos e açudes.

Isso porque a tecnologia permite que a mesma quantidade de água que passa em cima do lençol freático (superfície) se acumule na parte debaixo. A água quando encontra a lona, vai se acumulando.

Por conta disso é que o mesmo nível de profundidade que pode ser visto na parte externa – onde tem o açude – é encontrado embaixo do solo.

Vale dizer que quanto mais água acumulada na barragem, maior será a produtividade do sistema agroflorestal. E, mesmo em áreas onde não há muita água armazenada, o solo fica mais úmido e fértil.

Na propriedade da família Garcia, por exemplo, na lâmina d’água da barragem, que não tem uma profundidade muito grande, tem capim, feijão, milho e sorgo sendo produzidos.

Em relação a isso, Iranildo diz que “é importante ficar atento: o comprimento da barragem subterrânea depende da largura da área e da capacidade produtiva do agricultor”.

Implementar

Sistema Agrolflorestal – SAF

É a força de vontade, segundo Iranildo, o primeiro passo para instalar um SAF. “Quem tem vontade já tem a metade”, encoraja.

Escolha tomada, é hora de definir a área. É importante que seja um local de fácil acesso e que permita plantar contra o fluxo da água.

É preciso saber também a finalidade do sistema – alimentos, forragens, frutas, animais. A família Garcia optou por introduzir plantas que dariam suporte forrageiro aos animais, plantas resistentes e adaptadas à região.

Para o convívio harmônico entre o gado e a área cultivada, Iranildo sugere o uso de cercas que fazem a separação das áreas de cultivo e de pastagem.

Logo no início, quando as árvores ainda não crescerem o suficiente para sombrear a área, o agricultor pode plantar o que quiser, principalmente, hortaliças, feijão, milho e forragens, como fez a família de Iranildo.

No sistema agroflorestal, tudo se aproveita. As folhas secas (folhas das podas), por exemplo, são utilizadas na cobertura do solo e na produção do feno. “Antes costumava chamar de cobertura morta, mas não é. Hoje entendo que a cobertura seca é viva e dá vida”, diz Iranildo.

É essa cobertura vegetal que mantém a umidade do solo, protegendo-o. “A cobertura seca é como uma roupa que nós temos que usar para nos proteger do sol”, compara.

As técnicas para cuidar do solo incluem também as plantações em curvas de níveis, o barramento de pedras para evitar a erosão e a preservação das matas ciliares, nas margens dos rios.

Há também o reaproveitamento da água. Iranildo destaca que reutiliza a água da pia da cozinha e do ralo do banheiro por meio de uma vala cavada e de pneus que formam uma espécie de galeria das águas, direcionando a água para fruteiras.

Barragem

Para a construção da barragem, o primeiro passo é escolher o terreno e escavar.

A profundidade vai depender das características do solo e da extensão do terreno. No caso da família Garcia, a escolha do local foi em virtude de já haver no espaço uma pequena barragem de superfície, que não conseguia reter bem a água por causa de uma infiltração.

Na hora de escavar, formam-se os chamados barretes de trincheira.

Zezinho, técnico do Propac que ajudou na construção, explica que “o barrete de trincheira é uma espécie de vala com cerca de seis metros de boca (largura em cima) que vai afunilando para baixo, com cerca de 5m na parte de cima e 4m na parte de baixo”.

Uma dica é fazer como Iranildo, que aproveitou o material orgânico (terra e argila) retirado durante a escavação para a recuperação do solo nas margens laterais do açude.

Depois de fazer os barretes de trincheira, coloca-se uma lona que deve chegar até o firmamento de pedra, possibilitando a retenção da água da chuva no subsolo.

Sistema de gotejamento por irrigação

Para a distribuição da água, foi criado um sistema com 15 pontos de distribuição, com distância de 10 cm entre eles.

Nesses pontos são colocadas caixas d’água que podem ser feitas com diversos materiais reciclados.

Foi o que Iranildo fez. Ele aproveitou toneis de plástico que iam ser descartados e até uma geladeira velha foi transformada em caixa d’água.

O sistema de bombeamento da água, feito por meio do cata-vento, é assim: o vento gira o cata-vento que, com a energia utilizada para se movimentar, puxa a água para encher a cisterna de 6 mil litros.

É por gravidade que a água chega aos pontos de distribuição e são armazenados nas caixas d’água recicladas. “Colocamos as caixas d’água para a água ficar armazenada, assim a gente não fica na dependência do vento. No dia que não tem o evento, nós temos água aqui nas caixas”, justifica o experimentador.

Por meio de um sistema de gotejamento, a água é distribuída para as plantações.

Iranildo reforça que é importante somar forças e integrar as tecnologias. “Se não for assim, é como usar a mesma lógica da monocultura, que é o que a gente não quer. ”

Adiantou de quê?

Num terreno que já foi árido, hoje, com a agrofloresta, o que se vê são frutíferas, área de pasto e animais saudáveis.

Mudou tanto, que a família conseguiu transformar um “solo frouxiado” em um “roçado permanente”.

Com isso, conquistaram mais segurança alimentar, um carro maior para trazer e levar mercadorias, um cultivador e uma roçadeira.

Mesmo com chuvas abaixo da média, produziram feijão e milho verde em boa quantidade. “Ao invés de comprar, nós estamos produzindo e nosso excedente está sendo comercializado”, comemora Iranildo.

Outra conquista é a produção de polpas de frutas como cajarana e umbu.

Hoje, a família Garcia comercializa uma média de mil quilos de polpas por mês.

“Tudo aqui é resultado da barragem subterrânea”, destaca.

Desenrolar da História

Seu Inácio Garcia e Dona Fátima, pais de Iranildo, contam que a situação da família já foi muito difícil. Ela, por exemplo, lembra do tempo em que tinha que caminhar longas distâncias para buscar água no poço.

Essa história começou a mudar a partir de 2004, com a chegada da primeira cisterna de placas, via P1MC (Programa 1 Milhão de Cisternas).

Em 2007, a família Garcia foi beneficiada com a construção de uma barragem subterrânea, por meio do Projeto Piloto do Programa Uma Terra Duas Águas (P1+2), executado pelo Programa de Promoção e Ação Comunitária – Propac, da Ação Social Diocesana de Patos.

Também via P1+2 eles receberam a cisterna de placas.

Iranildo conta que antes da construção da barragem subterrânea tinham apenas uma pequena área produtiva onde cultivavam produtos para a alimentação da família.

O solo se degradou muito por causa de décadas de monocultura de algodão. A situação só melhorou mesmo com a construção da barragem, que aumentou a disponibilidade da água no subsolo.

Com isso, em 2008 Iranildo conseguiu começar o sistema agroflorestal.

Hoje os Garcia têm um sistema de produção de alimentos (feijão, milho, melancia, jerimum, macaxeira, batata, hortaliças, caju, goiaba, manga, acerola, limão, cajarana) e de plantas forrageiras para animais (capim elefante, sorgo, braquiária, leucena, gliricídia, moringa, flor de seda, guandu).

Tem também variedade de frutas. Entre elas, acerola, caju, laranja, tamarindo. Tem também plantação de três tipos de feijão; fava; batata doce; amendoim.

A produção é para o consumo da família e o excedente é comercializado em feiras agroecológicas da região.

As frutas são vendidas in natura e também beneficiadas para produção de polpas.

A busca por conhecimentos faz parte da vida de Iranildo há muito tempo. Já em 2000 ele participava de um grupo de agricultores do Vale do Sabuji, articulado pelo Propac.

No grupo, esteve presente em uma série de capacitações e visitas de intercâmbio. “Conhecer a realidade de agricultores de outra região foi muito bom para trazermos as ideias para cá e, poder pôr em prática o que fazemos hoje”, afirma.

Quem apoia

Esta experiência conta com o apoio do Centro Semear, em parceria com a Ação Social Diocesana de Patos, por meio do Programa de Promoção e Ação Comunitária (Propac).

Contato:

Centro Semear
(83) 3423-2206

http://www.centrosemear.org

Ação Social Diocesana de Patos/ Programa de Promoção e
Ação Comunitária (Propac)
(83) 3423-2206

http://www.asdppb.org

asdpcomunicacao@gmail.com / propac@uol.com.br